Além da Cordilheira


09 de janeiro de 2011. Destino: Valparaíso, Chile. Uma viagem inesquecível. Relevos, paisagens, costumes diferentes ... Um sonho. Uma Cordilheira.  5.830km em catorze dias.


     Contar sobre a viagem, tal e qual aconteceu é quase impossível; a menos que tivéssemos um gravador de voz. Pensei até, em comprá-lo, antes de viajar, mas não haveria tempo. O pedido não chegaria antes da viagem.
    Contudo, tentarei descrever, com a consciência que serei traído, mais de uma vez, pela minha memória.
    Uma viagem dessas não se faz sem um planejamento. Planejamento que começou a tomar forma no final de 2009, com a escolha do trajeto, dos pontos a serem visitados. No início de 2010, continuou a preparação, com a aquisição do passaporte e da carteira internacional de habilitação. No entanto, se tornou mais efetivo, após adquirimos a V-Strom 1000 em outubro de 2010. A partir daí, concluímos a confecção do adesivo para marcar a viagem e a aquisição e estampa das camisetas.
    Rota traçada, dinheiro juntado ao longo desses dois últimos anos, documentos em dia, faltava apenas o seguro carta verde, que foi providenciado há 40 dias da data da saída, com a Magna Seguros de Curitiba(PR).




Dia 09 de janeiro, domingo - primeiro dia:

    Saída: 06:35
    Antes de chegarmos a Cruz Alta, do papel celofane com o que havia revestido a carenagem da moto, pouco sobrara. Arranquei o restante.
    Almoçamos em Rosário do Sul.
    Chegamos à Aduana de Paso de Los Libres, Argentina, por volta de 14:50. O que vimos foi desanimador. Havia cerca de cinco ônibus de turistas argentinos que estavam saindo em direção ao Brasil. Filas enormes se formaram nos guichês de atendimento. Depois de informações desencontradas entre um atendente e outro, finalmente a policial (gerdarme) Jéssica nos atendeu, diante do argumento de que estávamos de moto, entrando na Argentina. Agradecemos a ela a compreensão.
    O passo seguinte foi fazer o câmbio de reais para pesos argentinos, aí mesmo na aduana. E aqui fica nossa recomendação: calculem aproximadamente o que irão gastar na Argentina e já façam o câmbio, porque tão logo não irão encontrar outra casa. E, para quem vai até o Chile, junto ao Paso Los Libertadores, há uma tenda de câmbio. No entanto, troquem apenas o necessário até chegarem à uma cidade chilena que possua casa de câmbio (nessa tenda, a cotação de Real para peso chileno é mais cara do que nas casas de câmbio no centro de Viña Del Mar, por exemplo).
    Na confusão e na pressa, esquecemos de comprar um mapa atualizado da Argentina.
    Voltando...
    Passada a alfândega em Paso de Los Libres, paramos em um Posto Petrobrás (bom atendimento, mas lugar de pouca higiene) a cerca de três quilômetros adiante, em direção a Federal, para abastecermos a moto e fazermos um lanche.

   

    Ainda era cedo e queríamos avançar mais.
    As estradas na Argentina parecem não ter fim, perdendo-se no horizonte, o que convida a apertar o acelerador, mas os acostamentos são precários; geralmente de rípio ou grama. Para estacionar a moto é preciso muito cuidado. A sugestão é levar um pedaço de metal, quadrado, com cerca de 15cm de lado, daqueles utilizados para fazer assoalho de ônibus (com estrias) para apoiar a moto quando estacionar.
    Depois de rodarmos 1.000km nesse dia, cansados, encontramos um lugar para dormir em Federal (Yatay Hotel), cidade às margens da Ruta 127. A roupa ficara molhada de suor por dentro e tivemos que tirá-la, virá-la do avesso e colocá-las sobre uma cadeira para secar.
    Após um banho refrescante, saímos para jantar em um restaurante (comedor) próximo ao hotel. Foi difícil entender o cardápio do restaurante e a garçonete não falava português. A ajuda veio de uma argentina que estava em viagem a Itapema com o marido e a filha (pocho? O que é isso? Descobrimos que pocho e pollo é a mesma coisa: frango, dependendo da região. Escolhemos uma parillada (churrascada, onde servem vários tipos de carne assada: gado, ovelha, porco - que carne dura! Mas comemos outra parillada em outro lugar, com carne macia).
       Depois da janta, uma caminhada pelo centro da cidade à procura de uma Lan House. Decepção, porque a única que funcionava estava cheia de jovens jogando pela Internet.
    No centro de Federal há vários lugares com cadeiras e mesas nas calçadas, onde, à noite, pode-se degustar uma cerveja ou tomar um sorvete.

    

      Importante dizer que não vale a pena fazer tanta quilometragem no mesmo dia, mesmo que ainda seja cedo; cansa muito. O melhor é rodar de oito a dez horas por dia (incluído o tempo de paradas para almoço, abastecimentos, lanches), independentemente da distância percorrida. Houve um dia que rodamos 550km, de retas intermináveis e ventos laterais muito fortes; outro dia, rodamos 700km bem rodados, sem tanto cansaço.
    Resumindo: média de dez horas ou 700 km diários são razoáveis.
   Como estava dizendo, depois da “janta”, regada à vinho, fomos ao merecido e necessário descanso, pois os próximos dias nos esperavam e nós estávamos apenas no começo.



Dia 10 de janeiro, segunda-feira – segundo dia:

    Saímos de Federal quase oito da manhã sob um Sol que prometia castigar durante todo o dia, assim como fora no dia anterior.




    Depois de cerca de uma hora de viagem, percebi perda da estabilidade na moto e um barulho que eu já conhecia; havia furado um pneu. Até aí não sabia se era dianteiro ou traseiro e a 130km/h diminuí a pressão sobre o acelerador e deixei a moto rodar livremente, diminuindo até parar. No pneu traseiro, um furo. Esguichei o reparador, mas todo o líquido saiu por aquele buraco. Graças a Deus, estávamos a uns 300-400 metros de uma borracharia. Levei a moto até lá e o pneu foi consertado, colocando-se um tarugo de borracha.


    Seguindo viagem, cruzamos o túnel Raúl Uranga, sob o rio Paraná, com seus mais de 2.900 metros de extensão e profundidade média de 14 metros. Esse túnel une as cidades de Paraná e Santa Fé, na Argentina. Para atravessá-lo paga-se pedágio (5 pesos, aproximadamente R$ 2,50); uma experiência inesquecível. Na saída do túnel, uma longa ponte sobre o mesmo rio; ponte que lembra a de São Francisco (USA). Logo depois, estávamos chegando a Santa Fé, Argentina.

    
    Depois de Santa Fé, Santo Tomé, onde em uma borracharia (Gomeria), extraíram os tarugos de borracha, limparam internamente o pneu, que ficara tomado por um líquido branco, desmontaram-no e colocaram um remendo por dentro. O que nos garantiu até o final da viagem.

              


                     
    Como nossos pesos argentinos estavam quase se esgotando, procuramos em vão, em Santo Tomé, um lugar que fizessem o câmbio. Àquela hora do dia, 15:45 e já com fome, depois de percorrermos vários quilômetros pelo Centro, em busca de um restaurante e de desistir de encontrar uma casa de câmbio que fechava (cerrava) às 16hrs, resolvemos parar em um Posto de Serviço (Posto de Gasolina e Loja de Conveniências) para um lanche, Mas nesse posto nos tranqüilizaram, afirmando que em São Francisco sim, seria fácil fazer o câmbio.


    Em São Francisco, depois de rodarmos mais 130 quilômetros, novamente uma parada para abastecer a moto e fazermos um lanche, enquanto nos perguntávamos como encontrar uma casa de câmbio.
    Enquanto estávamos na loja de conveniências, cansados e aproveitando um sanduiche de presunto (jamón), vislumbramos uma revenda de caminhões (RODACAM CAMIONES), do outro lado da rua Rosário de Santa Fé. Adivinhando meus pensamentos, a Cleci sugeriu irmos até lá para sabermos se eles trocariam ou se saberiam onde encontraríamos uma casa de câmbio, uma vez que, os frentistas e as garçonetes não tinham a mínima idéia onde havia uma.
   Terminado o lanche, me dirigi àquela revenda. Quem me atendeu foi Luis Veja, que prontamente se dispôs a trocar cem reais por pesos argentinos, sem mesmo saber a cotação, aceitando a minha oferta (R$ 0,50 por um peso, quando na aduana aplicaram a taxa cambial que vinha sendo praticada – R$ 0,43). O Luis não é cambista e não trabalha em nenhuma casa de câmbio. Ele, simplesmente tinha pouco mais de trezentos pesos no bolso e se prontificou a trocá-los por reais. Ainda maior foi minha surpresa quando, depois de feita troca, disse-me que, juntamente com seu pai, já estivera em Erechim, participando de um rali. A ele ficamos agradecidos, aguardando sua visita.
    Ainda era cedo do dia e reiniciamos a viagem em direção a Córdoba, chegando lá por volta das 19hrs, ansiosos por encontrar um hotel e descansar, pois o dia fora muito cansativo.  
    Sem idéia de onde encontrar um hotel, já na entrada da cidade, pedimos informações a dois policiais, que nos apontaram um, próximo de onde estávamos. Depois de algumas voltas, localizamos o Bari Hotel (não aceitam cartões de crédito), onde nos hospedamos por $ 188,00 (aproximadamente, 90 reais) a diária, com café-da-manhã.
    Convém ter presente, que nem todos os hotéis, mesmo no centro das cidades, aceitam cartões de crédito (tarjetas). Como não tínhamos muitos pesos e as casas de câmbio já estavam fechadas, juntamos o que tínhamos de dinheiro e conseguimos pagar o pernoite. Depois de um bom banho e trocarmos de roupa, já escuro, saímos para jantar, rezando que aceitassem cartão de crédito. A cinco quadras do hotel, encontramos um excelente restaurante (Viejo Lobo), servindo a La carte, onde aceitaram cartão de crédito.

         


Dia 11 de janeiro, terça-feira – terceiro dia

    Saímos pouco depois das oito da manhã, já com a indicação de um hóspede do hotel que, na noite anterior, atenciosamente desenhou um roteiro para chegarmos à Praça San Martin, onde localizaríamos uma casa de câmbio. Do outro lado dessa casa de câmbio, ergue-se majestosa, a Catedral de Córdoba, construção colonial mais antiga da Argentina, que, infelizmente, não tivemos tempo de visitar.
             
    Vale dizer que, nessa viagem, sempre que precisamos de alguma informação, encontramos pessoas dispostas a ajudar. Assim foi em Córdoba (os policiais e esse senhor); em Tanti, onde paramos em um posto policial, quando, tanto os policiais quanto as pessoas que estavam ali, se empenharam em nos dar informações importantes. Gentileza e atenção continuaram em várias ocasiões durante a viagem.
    Sair do centro de Córdoba exigiu sacrifícios. O trânsito é rápido, ninguém tem paciência e pouca gente sabe informar a saída, mesmo em Postos de Abastecimento. Foi em um desses Postos de Serviço que, um senhor, percebendo que estávamos confusos com tantas versões sobre a melhor opção para sair da cidade, adiantou-se em nossa direção, oferecendo ajuda. Tão logo abasteceu seu carro, fez questão que o acompanhássemos pelo emaranhado de avenidas e ruas que são comuns a qualquer cidade grande. Depois de rodarmos por cerca de vinte minutos, nos deixou próximo à rodovia; deu mais algumas explicações e nos deixou.   Despedimo-nos agradecidos, com um aperto de mão.
    Após rodarmos por meia hora, nos deparamos com uma bifurcação, nos obrigando a uma nova parada em um Posto de Abastecimento.
    Depois disso, a viagem foi tranqüila, rodando por pistas duplicadas, recebendo, de quando em quando, olhares de admiração e acenos amistosos ao ultrapassarmos algum veículo.
    Seguimos em direção a Tanti, passando por Carlos paz, onde, novamente nos deparamos com outro dilema, confrontando o mapa que tínhamos (adquirido no Brasil) com o que víamos à frente. Havíamos planejado ir por Cuchilla Nevada,Tala Cañada, depois, Salsacate, El Cadillo até Chepes. Porém, havia uma grave divergência: o mapa assinalava rodovia pavimentada, mas a realidade era outra. No posto policial, em Tanti (que no mapa brasileiro trazia como Tasti), nos informaram que enfrentaríamos cerca de 90 km de chão, caso continuássemos em direção a Chepes. A outra opção, com rodovia pavimentada, era retornar 25 quilômetros até Bialet Massé, pegar a Ruta 38 em direção a Cruz Del Eje  até Serrezuela e, finalmente, tomar à esquerda até Chepes. E foi o que fizemos, sem arrependimento. Mas antes, como já havia passado do meio-dia, provamos outra parrilada  em Bialet Massé (melhor do que aquela que experimentamos em Federal à noite).


    Depois do almoço, sob um Sol que castigava, seguimos pela Ruta 38, marcada por muitas curvas; rodovia que freqüentemente se interrompia para cruzar em meio a pequenas cidades: Santa Maria, Cosquín, La Falda, Huerta Grande, La Cumbre, Capilla Del Monte e Cruz Del Eje. Finalmente, saímos da confusão de ruas movimentadas e rodovias de trânsito intenso, para alcançarmos a continuidade da mesma Ruta 38 que nos conduziu a Serrezuela, onde, finalmente, nos lembramos de adquirir um mapa da Argentina, pagando aproximadamente nove reais.
    De Serrezuela a Chepes, passando por El Chacho (localidade que mais se assemelha a uma cidade do velho oeste norte-americano, com suas construções simples e baixas), são 143 km, de retas intermináveis, sem postos de abastecimento. Nesse trecho (tramo) há criações de cabras. É preciso ter cuidado; a qualquer momento elas podem atravessar a rodovia.


    Chegamos a Chepes no final da tarde. Abastecemos no primeiro Posto na entrada da cidade, onde, nos fundos, o Automóvel Clube da Argentina mantém uma pousada com restaurante. Um bom lugar para ficar (aceitam cartão de crédito).
    Por falar em cartão de crédito, quase a totalidade dos Postos de Abastecimento YPF (estatal argentina) e da Petrobrás, aceitam cartões.
    Antes do jantar, preparei a moto para o dia seguinte (lubrificar a corrente – coisa que vinha fazendo a cada 500km; abastecer, verificar o estado geral da moto...).
   


Dia 12 de janeiro, quarta-feira – quarto dia

    O dia estava lindo e o calor já castigava às oito da manhã.
    Nesse dia pretendíamos chegar a San Agustín De Vale Fertil, visitarmos Ischigualasto (O Vale de La Luna) e Talampaya, sítios onde se encontram marcas de vida pré-histórica, declarados no ano 2000, como Patrimônios da Humanidade, pela UNESCO.   
    Essa pequena cidade está localizada na província de São Juan dentro do Parque Provincial Valle Fertil, em direção a nordeste da capital San Juan.
    Estávamos saindo de Chepes pela Ruta 141 e ainda tínhamos 195 quilômetros até lá.
    Nesse trajeto, novamente rodovias que se perdiam no horizonte, onde, de ambos os lados, via-se apenas a planície imensa e árida, perdendo-se ao longe, até encontrar seu final em algum ponto do infinito.



     Em alguns lugares, essa mesma paisagem era manchada em quase toda sua extensão, pelo branco do sal, denunciando que outrora, toda essa região fora possivelmente um grande lago ou mesmo um oceano.




    À medida que nos aproximávamos do cruzamento (cruce) que nos indicaria o caminho para San Agustín, pela Ruta 510 o relevo se modificava; vegetação rasteira surgia, entrecortada por algumas pequenas elevações; por pontes sobre rios sem vida; por curvas cada vez mais acentuadas. Em alguns trechos, a rodovia cortava pequenos montes, incrustados de “pedrinhas de rio”, novamente, confirmando que há milhões de anos a água era o elemento predominante na região.

            


    A poucos quilômetros de San Agustín, uma placa anunciava os limites do Parque Provincial Valle Fertil. Paramos para tirar umas fotos e logo depois um casal de motociclistas em cima de uma DL-650, também parava.
    Com o pouco que entendíamos de espanhol, descobrimos que nossos amigos, Jędrek (Andy) e Gosia Woynarowski  são da Polônia e que já estavam na estrada há mais de quatro meses de um projeto para percorrer a volta ao mundo em três anos. Trocamos o adesivo da nossa viagem pelo seu cartão de visitas. Um projeto ambicioso, mas bem estruturado (vejam site: http://www.journeyfarbeyond.com/). Deixamos aqui, as mesmas palavras que usamos quando a eles enviamos um e-mail: que concluam a viagem, com saúde e tranqüilidade e, repetindo o que lhes dissemos: que se um dia retornarem ao Brasil e passarem por Erechim(RS), teremos enorme satisfação em recebê-los.
    Depois que se foram, ainda admirados da coragem com que encaravam a jornada, comentamos: Isso sim que é aventura!
             


      
    Chegando a San Agustín, primeiramente almoçamos no centro da cidade, próximo à praça; depois, fomos ao escritório de turismo, localizado ao lado da praça central, onde colhemos informações sobre a visitação ao Valle de La Luna. Admirados pela nossa viagem, foram muito solícitos, brindando-nos com explicações detalhadas e panfletos do passeio que pretendíamos fazer. A seguir, fomos manter contado com uma das agências de viagens para contratarmos um tour ao Valle de La Luna.







        Antes de contratarmos o passeio, fomos em busca de um hotel, escolhendo a Hosteria Valle Fértil, assentada sobre uma elevação, de onde se tem uma vista do vale onde está a cidade, e do dique que a abastece de água. Quarto com ar condicionado, frigobar, box no banheiro. Muito bom, ao custo de $ 197,00 (R$ 95,00 o pernoite para o casal – cuarto matrimonial), incluindo o café-da-manhã (desayuno). Não servem almoço, mas servem excelentes pratos à noite, à La Carte, com preços que variam de 35 a 50 reais - o suficiente para duas pessoas, com vinho!

  

     Acomodada a bagagem no hotel, descemos até o centro da pequena cidade para acertarmos os detalhes do passeio para o dia seguinte.
    Em San Agustín, há duas empresas que fazem esse transporte, o que já sabíamos, pelas pesquisas que fizemos na Internet. Buscam o passageiro no hotel e o trazem de volta sem custo adicional. Preço desse passeio, por pessoa: $ 100,00 (cerca de R$ 50,00).


Dia 13 de janeiro, quinta-feira – quinto dia

    Esse foi o dia do passeio ao Valle De La Luna.
    Uns dizem que Ischigualasto, em língua indígena significa “Terra sem Vida”; outros afirmam que a tradução é “Lugar onde se.põe a Lua”. Talvez a tradução mais adequada seja a última. Isso porque, esse lugar é conhecido por Valle de La Luna, fazendo jus ao nome pelo relevo que lembra a paisagem lunar.
    Mais adiante, o parque Talampaya dá continuidade a essa aventura pela pré-história, com suas inscrições rupestres, paredões, canions que, infelizmente, como não havia interessados para completar a lotação, não conseguimos visitar. Ficará para a próxima, quem sabe...
    Chegando ao sítio arqueológico, deve-se pagar pelo ingresso (cerca de $ 70 por pessoa – aproximadamente, R$ 35,00), com acesso a todo o circuito, incluindo visita ao Museu de Ciências Naturais anexo.

    A circulação somente se dá com a presença de um guia. Assim, para quem quiser fazer esse passeio de moto, basta chegar ao parque antes das oito da manhã e aguardar o guia que acompanhará a caravana (carros particulares, motos, vans...) com paradas determinadas. Ninguém pode se adiantar e nem se atrasar. Se atrasar, deve esperar até o guia retornar e reiniciar a visitação, que dura por cerca de três horas.
    Preferimos contratar o tour em San Agustín pela comodidade e por desconhecermos as condições para o acesso e visitação. Foi uma decisão acertada, pois se fôssemos de moto, enfrentaríamos muito pó; o interior do Parque não é pavimentado. Dentro, o trecho é de terra, com algumas variações de areia, mas com cuidado pode ser visitado de moto. Porém, nossa sugestão é contratar um tour.
     A paisagem no Valle de La Luna é impressionante: rochas pesando toneladas, apoiadas sobre sedimentos e o que chamamos de “pedrinhas de rio”, desafiando o tempo e as intempéries. Como diz o guia, nas poucas vezes que prestamos a atenção aos seus relatos, talvez essas rochas não fiquem nessas posições por muito tempo. Rochas em forma de esfinge, de cogumelo; outras, lembrando torres de um submarino bizarro; a cancha de bochas, formada por pequenas esferas de pedra em formato incrivelmente redondo, produzidas pela ação das intempéries; formações de sedimentos em camadas multicores, também compõem a desolada paisagem.






   








  

      Finalizando a visita, adentramos o Museu de Ciências Naturais, na entrada do Parque Ischigualasto. Fósseis e réplicas de pequenos dinossauros dão a dimensão do que fora a vida há milhões de anos. Nesse museu são vendidas camisetas com imagens desses seres que habitavam a região.

   




      Chegamos de volta a San Agustín por volta das 13:30.
     Almoçamos, pegamos a moto e retornamos, por cerca de cinco quilômetros, pela mesma rodovia que nos conduziu ao Valle de La Luna. Um passeio para fotos da antiga Igreja na comunidade de Usno e na seqüência, uma visita ao Museu “Piedras Del Mundo”
     Esse museu abriga em uma de suas alas, diversas amostras de rochas que compõem a estrutura de nosso planeta. Em outra ala, desidratados, podem ser vistos insetos, escorpiões, aranhas e outros minúsculos animais que repousam em mesas e prateleiras de vidro. Fotos de répteis e alguns animais empalhados completam a exposição. Vale uma visita. No entanto, se querem conhecer um Museu Entomológico riquíssimo em variedade de espécies, visitem o Museu Fritz Plaumann, em Seara, Santa Catarina (a cerca de 35 quilômetros de Concórdia, aqui no Brasil).



    
      Já era final da tarde quando retornamos ao hotel, a tempo de abrir uma Quilmes. O calor não deixava outra alternativa...
      O comércio fechava suas portas ao meio-dia, para reabri-lo às 16hrs. Para quê pressa?
      Ainda havia Sol, quando saímos para umas compras no mercado e procurarmos alguém para trocar o óleo da moto. Felizmente, encontrei o óleo (aceite) em uma pequena loja de ferragens. Depois de uma breve busca, encontrei um mecânico de motos que se prontificou a fazer a troca (expliquei que era simples, mostrando o manual). Aliás, coisa que eu mesmo poderia fazer; tinha as ferramentas, mas preferi deixar para alguém que já trabalha com isso (preguiça...). Marquei para mais tarde, ao escurecer, já que ele tinha muito serviço. O que foi feito.
      Aproveitei para uma revisão geral, abastecer e calibrar os pneus. Preocupações que já se tornavam rotina. No dia seguinte, mais estrada nos esperava.


Dia 14 de janeiro, sexta-feira,  – sexto dia

      Saímos em direção a San Juan.
      No trecho entre San Agustín e o trevo de acesso a Ruta 141, também encontramos cabras pelo caminho, exigindo mais atenção na pilotagem. A diversão ficou por conta das ondulações da pista, que davam uma sensação de estar em um tobogã (aquele friozinho na barriga...). Mas não exagerei na velocidade, porque quando a gente entra em uma depressão no terreno, o peso da moto, a carga, forçam demasiadamente a suspensão.




      Tomada a direção de San Juan pela Ruta 141, encontramos muitos caminhões retornando do rali.
     Em Difunta Correa, Argentina, ponto de passagem do Rally Dakar, abastecemos a moto e fizemos um lanche, enquanto admirávamos ao longe, a poeira levantada pelos carros. E ficou nisso, porque não tínhamos tempo para assistir. Nesse posto encontramos dois chilenos que retornavam para casa e com quem trocamos informações.

         

  

    
      Forças refeitas, pegamos a estrada.
    Alguns quilômetros depois, já conseguíamos divisar a Cordilheira. Os picos mais elevados, vistos de longe, pareciam nuvens. À medida que nos aproximávamos da cordilheira, a sensação mudava; havia muita emoção.
       O dia estava lindo naquela sexta-feira.
       É em Potrerillo, com sua represa de águas azuis e o rio Mendoza, onde o rafting é praticado, que se pode dizer que é onde a Cordilheira se inicia.







       Logo depois, a rodovia se perde entre as montanhas que no inverno ficam cobertas de neve. Imagino a beleza desse lugar quando neva. No entanto, não acredito que seja uma boa idéia viajar de carro ou de moto por ali naquela época do ano.


     


       Túneis entre as rochas, proteções contra avalanches e a própria rodovia que serpenteia entre as montanhas, produzem um cenário diferente do que conhecemos aqui no Brasil. É constante a impressão de estarmos sozinhos, apesar de nos depararmos com um e outro veículo vindo em sentido contrário.



       A próxima parada foi em Uspallata, a 83 km da fronteira. Uma cidade preparada para receber visitantes qualquer época do ano, mas principalmente, no inverno.
Chegamos ainda com Sol e aproveitamos para conhecer a cidade, depois de deixarmos nossa bagagem no hotel Pórtico Del Valle. A moto ficou em frente a esse hotel (que não possui garagem – cochera). À noite a temperatura baixou, o que fez com que nos abrigássemos na Pizzaria Las 3 Jotas para degustarmos uma saborosa pizza e... um bom vinho.

    

   

       De Uspallata se tem mais uma vista deslumbrante da cadeia de montanhas.

           


Dia 15 de janeiro, sábado – sétimo dia

            Saímos às oito da manhã de Uspallata, depois de um café-da-manhã (desayuno) bem modesto, por conta das dicas que colhemos na Internet durante o planejamento para essa viagem: não ingerir nada de álcool, alimentos gordurosos e nem café antes de subir a Cordilheira, o que evitará alguns contratempos devido à altitude.
            Seguimos praticamente acompanhando o rio Mendoza, que nesta época do ano estava baixo. Às margens de um dos lados as marcas deixadas pelo caudal produzido pelo degelo nas montanhas, quando então o rio se agiganta.
            Entre as montanhas, o silêncio quebrado apenas pelo vento ainda fraco naquela hora da manhã; pelo turbilhão de pensamentos; pela emoção indescritível, misto de solidão, de poder, mas também, de medo pelo desconhecido. Sentimentos que são abrandados pela consciência de que, afinal, estamos em nosso planeta e por conseqüência, cidadãos do mundo...

    




No trecho de 83 km, uma das paisagens mais excitantes: Polvaredas, Punta de Vacas, Los Penitentes, Puente Del Inca, o mirante do Aconcágua e Las Cuevas. Esta, a última localidade argentina antes da fronteira com o Chile.
O relevo nesse trecho é um dos mais belos e ao mesmo tempo, mais emocionante. Imponentes, as montanhas assustam; túneis cavados na rocha dão a dimensão da resistência da natureza ao avanço do homem.
Enquanto silenciosos admirávamos a magnitude dessa paisagem e intimamente admitíamos nossa insignificância diante desse Universo, percorríamos os caminhos, deixando-nos levar montanhas a dentro, registrando em nossas mentes e através da lente da máquina cada detalhe que pudéssemos.















 
 

Passando por Los Penitentes, uma estação de esqui, se vê marcadores que no inverno apontam até onde a neve alcança; se vê as estacas na encosta, que servem para delimitar a prática do esqui no inverno; se vê também, os suportes dos teleféricos que levam os turistas morro acima para depois, lançarem-se de esqui pela ladeira coberta de branco. Tudo isso era visível, já que estávamos em pleno verão, enfrentando pouco mais de 30ºC. Quase não havia vegetação.



     
Depois de Los Penitentes, Puente Del Inca.
Chegamos em Puente Del Inca, a 2.700 metros de altitude, pouco mais de nove e meia da manhã, quando os residentes ainda se preparavam para o dia. Vendedores de souvenirs começavam a acomodar suas coisas nas mesas sob os toldos; pátios e interiores das casas de lanches eram varridos e lavados, recebendo seus primeiros cuidados. Entre o agito e o vai-e-vém dos camelôs, a Cle ainda conseguiu uma bijouteria nativa, um brinco, que conserva e usa com muito carinho, como uma das lembranças dessa viagem inesquecível.
Ao pararmos para uma foto frente à placa, sentimos um pequeno enjôo, como se estivéssemos momentaneamente desorientados. A altitude nos incomodava um pouco. Mas a solução foi simples e rápida: respirar fundo por alguns segundos. Tudo voltou ao normal e o corpo se acostumou em seguida. Quanto à moto, nenhum contratempo.
Puente Del Inca, conserva as ruínas de um hotel destruído por uma avalanche em meados dos anos 60. Avalanche que atingiu algumas construções do outro lado do rio Las Cuevas (uma igreja de pedra e algumas casas). O nome se deve a uma ponte natural de pedra, mas que hoje está interditada, por apresentar risco de desabamento.


   

    







   


       Saindo de Puente, a próxima parada foi no Parque Provincial Aconcágua, o pico mais alto dos Américas, com seus 6.962 metros de altitude. O mirante do Aconcágua é o máximo onde se pode ir para quem não vai escalá-lo e é de onde se avista o Cerro com seu cume coberto de neve.
Para a visitação é necessário sair da rodovia, entrando cerca de 200 metros em direção à recepção, onde se adquire o ingresso para ir até esse mirante. Paga-se 10 pesos por pessoa e pode-se, depois, seguir por um trecho pavimentado, mais uns três quilômetros até a base. Deixa-se a moto no estacionamento da base (estacionamento todo de rípio) e caminha-se por cerca de meia hora até esse Mirante.




  


   










      O trajeto é demarcado e pode-se admirar alguns patos selvagens banhando-se na Laguna de Horcones (horcones - forquilha).




                   

Encontramos um motociclista que viajava sozinho desde o Rio de Janeiro, em direção ao Atacama e acabou nos acompanhando nesse passeio pelo parque do Aconcágua. Deixamos aqui nosso abraço e o desejo de boas viagens ao Déo.



Findo o passeio, tomamos o rumo da fronteira, passando por Las Cuevas. Logo depois desse povoado, um monumento à integração dos povos, simbolizado por uma cruz. É o monumento ao Cristo Redentor, há poucos metros do túnel homônimo.


    

À entrada desse túnel, fotos para a posteridade.
Cavado na rocha da Cordilheira, o Túnel Cristo Redentor possui 3.900m de extensão e está a 3.209 metros de altitude. Uma obra monumental.








Feita a travessia, providenciamos os trâmites para entrada no Chile, através da Aduana integrada Chile-Argentina, Paso Los Libertadores. Não havia muito movimento, no entanto, um formulário que preenchi e que recebeu a liberação do lado argentino, extraviou-se (havia muito vento naquele momento) e não foi encontrado. O que nos obrigou a andar de um lado para outro entre a aduana argentina e chilena em busca de uma solução. Solução essa que veio do responsável pela aduana chilena que providenciou outra ficha de entrada no Chile, em relação à moto, como sendo “importação temporária”. Agradecemos a gentileza e presteza com que nos atendeu.
Duas horas depois, estávamos livres para descer a cordilheira, do lado chileno, dividindo a emoção de passar em Los Caracoles com outros viajantes. Trecho de 30 quilômetros, com acostamentos em rípio e praticamente sem sinalização, mas belo, e ao mesmo tempo, assustador. Não há espaço para manobras bruscas e muito menos para ultrapassagens.


   





   

Vencido Los Caracoles, já nos limites da localidade de Guarda Viegas, paramos em um Posto de Serviço para abastecimento (moto e nós; a fome era grande). Ponto de parada para um grupo de motociclistas mineiros que também se aventuravam por aquelas montanhas.



Refeitos, seguimos em direção a Viña Del Mar, chegando lá quando o Sol principiava a se esconder.
Ficamos no primeiro hotel que encontramos, próximo a uma das pontes sobre o rio que corta a cidade, o Marga-marga (marga, em espanhol é barro). Conseguimos um quarto de fundos, sem muito espaço; banheira antiga, minúscula, com cortina de plástico, mas serviu para aquela noite. Apesar de ser uma cidade litorânea, com grande fluxo de turistas durante o verão, pelo que percebemos, há hotéis em grande número e para todos os gostos e bolsos.




Acomodadas as coisas no hotel e depois de um bom banho, saímos a pé a procura de um restaurante (e são tantos...). Àquela hora (21 horas), estava fazendo 17ºC, o que nos obrigou a apressar o passeio sem perder de admirar os encantos desse cidade que mais de assemelha a Camboriu em Santa Catarina. Prédios suntuosos, o Cassino Municipal e uma vida noturna agitada fazem dessa cidade litorânea, no verão, um grande ponto de atração turística.










Depois da janta (no Restaurante Gaúcho, que servem frutos do mar, além de carne assada, mas não no espeto), circulamos pelos arredores do hotel à procura de outro local para ficarmos.
Estávamos gostando de Viña Del Mar e queríamos conhecer um pouco mais do lugar no dia seguinte, domingo. Decidimos então, irmos a Valparaíso na segunda-feira e de preferência, contratarmos uma Agência de Turismo.
A três quarteirões de onde estávamos hospedados, encontramos outro hotel (Magno Hotel), e reservamos vaga para a manhã seguinte.


Dia 16 de janeiro, domingo – oitavo dia

Após o café-da-manhã, mudamos para o hotel acertado na noite anterior ao custo de 78 dólares a diária com café-da-manhã, incluída a garagem (cochera). O inconveniente ficou por conta do reduzido espaço no banheiro e da garagem, que está localizada no outro lado da rua, no subsolo de um prédio novo.
Deixadas as coisas no hotel e a moto em segurança, descemos até a portaria para nos informarmos sobre o tour a Valparaíso. Depois do contato feito com a Agência (Bohema Tour) e acertados preços e horário para às oito horas do dia seguinte, saímos a pé, mais quatro quarteirões, até a travessia sobre uma das pontes do estuário do rio Marga-marga que corta Viña Del Mar.

   

   




Continuando o passeio, uma pequena parada para admirar (mais uma vez, de fora!) o Cassino, onde à frente às nove da manhã, o calçadão da orla já recebia camelôs e artesãos se preparando para o domingo que, sob um Céu azul e o calor chegando, prometia trazer grande movimento.

  

Caminhando pela calçada ao longo da orla, tivemos o segundo contato visual (o primeiro fora na noite anterior – passeio curto, devido ao vento frio) com as águas agitadas do Pacífico e suas areias grossas e sujas. Admitimos, contudo, que esse poderia ser o aspecto da praia, aqui, no início, antes do molhe Vergara e que depois desse ponto talvez houvesse praias de areias limpas. Mas como não tivemos tempo para irmos mais adiante, ficou essa impressão e não seria justo generalizar.


    


     


                        

Da orla se avistam os navios cargueiros à espera da atracação no porto de Valparaíso a cerca de três quilômetros (em linha reta) de onde estávamos.


Viña Del Mar, conhecida como a Cidade Jardim do Chile, faz jus a esse título pelas belas praças e jardins. Surgiu da fusão de duas fazendas responsáveis pelos grandes vinhedos da região: las Siete Hermanas e Viña del Mar, e pertence à província de Valparaíso, que abrange mais quatro comunas.








Devido ao pouco tempo disponível, infelizmente, deixamos de visitar muitos lugares, como o metrô, por exemplo, que une Viña a Valparaíso, as praias de Con-Con, Reñaca e Algarrobo (onde se encontra a maior piscina do mundo). No entanto, marcamos presença no Relógio de Flores (que funciona com precisão); em algumas praças e no Shopping Mall Marina Arauco.


  


    


   

       

Almoçamos no próprio Shopping. Único restaurante que encontramos, até então, que servia buffe; único onde encontramos feijão (da variedade cavalo e em salada. Não se encontra o nosso tradicional feijão com arroz; nem no Chile e muito menos na Argentina).
Foi nesse Shopping que adquiri alguns mapas do Chile (por regiões). Mas nos Postos de Abastecimento pode ser encontrado um mapa mais compacto, de todo o Chile (Mapa Caminero de Chile).

   


        

Depois do almoço, deixamos as compras no hotel e retornamos para um passeio mais demorado pela praça próxima à praia, onde a multidão se dividia: ora assistindo um espetáculo de malabarismo; ora, acompanhando as crianças em um teatro infantil de bonecos, enquanto bicicletas circulavam pela calçada adjacente. Outros, ainda, estendiam suas toalhas sobre a grama da praça e ali ficavam descansando (não vimos ninguém tomando chimarrão...).

    


        

Ao escurecer, novamente o frio apareceu e aproveitamos para tirarmos fotos do Relógio de Flores. Estávamos temerosos de que a carga da bateria da máquina não agüentasse. Mas agüentou.


    




  

  


     

Depois do retorno ao hotel para a troca de roupa, saímos para jantar no Taco Bar (do outro lado do Marga-Marga); um bom lugar.


Dia 17 de janeiro - segunda-feira – nono dia

            Visita a Valparaíso.
Às oito da manhã, estávamos na portaria do hotel aguardando a van para o tour em Valparaíso.  No entanto, fomos surpreendidos com a chegada de um automóvel. Não prestei a atenção ao modelo, mas era parecido com um Vectra, que nos levou até Valparaíso. À bordo, além de nós, o motorista e a Ingrid que tão atenciosa nos serviu de guia.


Na saída de Viña del Mar, à esquerda, uma de suas antigas universidades.

            

Já em Valparaiso, Inicialmente, percorremos de carro o centro da cidade, passando pela sede do Parlamento; uma parada na Praça das Estações; os monumentos.

  

Logo depois, o motorista nos deixou com a guia em um dos morros e damos início à subida a pé.
Segundo a guia, somente assim poderíamos conhecer e aprender um pouco desse lugar, declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO.
Enquanto admirávamos as construções, Ingrid se esmerava em nos explicar a história daquelas casas multicores e de suas ruas estreitas.

   







  


 

Tudo nos encantava.
Naquela hora da manhã, lá de cima do morro, podíamos observar uma espessa nuvem de fumaça emergindo de uma grande chaminé, assentada em uma construção ao longe, próxima ao cais. O cheiro de café, vinha a ia suavemente, como se estivesse nos provocando. Como que, adivinhando nossa curiosidade, Ingrid explicou que lá funcionava uma importante torrefadora de café. O que serviu de pretexto para, logo depois, um café com media luna, no El desayunador.

  



      


     

Mas antes do café, uma passada pela casa de Pablo Neruda que, infelizmente, como era segunda-feira, estava fechada ao público, para manutenção.





 Uma passada pelas diversas casas de família transformadas em pousadas por falta de estrutura hoteleira; e pelas breves histórias de algumas igrejas. 


   





  

      
Finalmente, o café...

  

             
Depois do café, o retorno, passando pela mansão, do antigo “rei do salitre”, hoje transformada em museu, que, igualmente por ser segunda-feira, não visitamos.




A caminhada pelas ruas estreitas do Cerro Concepción.

   


   


    


       


               


      

 A vista da Bahia de Valparaiso...


                


Descemos para o centro da cidade, através do Ascensor Peral, um dos famosos ascensores, que fazem, juntamente com as casas coloridas de Valparaíso, o seu cartão postal.


          








Depois, uma caminhada pela praça das armas, o passeio de bonde elétrico.

  


          


 

No retorno, a atenção da guia continuava, falando dos monumentos ao longo da grande avenida que nos ligava a Viña Del Mar.




   

Não voltamos ao hotel, de imediato, ficamos em frente ao relógio de flores para completar a tarefa da noite anterior (mais fotos).

Eram quase duas da tarde quando descemos até o centro de Viña para almoçarmos, fazermos mais algumas incursões nas lojas do Centro e visitarmos um corredor de camelôs.
Começava escurecer quando saímos para o jantar; novamente no Taco Bar. Mas antes, para provar para mim mesmo que estive lá, molhar as mãos no Oceano Pacífico.

 







  
Já havíamos traçado mentalmente o trajeto de saída de Viña. No dia seguinte, deixaríamos a cidade já com saudades de voltar.


Dia 18 de janeiro - terça-feira – décimo dia

Saindo do hotel, novamente atravessamos uma das pontes sobre o Marga-marga, tomando à direita, em direção a um Posto BR para abastecermos a moto. Em seguida, seguimos em direção à Av. Viana Alvares, cruzando pela última vez o estuário, para depois, na continuidade, sairmos da cidade.
Iniciávamos nesse momento, o retorno para casa.
Agora, desfrutaríamos de paisagens já conhecidas: as bandeirinhas de metal, coloridas, “plantadas” ao longo do acostamento da rodovia, logo depois de Viña Del Mar .


As proteções contra avalanches.







   
Los Caracoles.

  


            A extensa fila de veículos antes da fronteira com a Argentina.


 As construções e trilhos de uma ferrovia abandonada.

 

               

Belas e desafiadoras paisagens.


  





 Andamos mais alguns quilômetros, até o primeiro controle à beira da rodovia (não fosse pela guarita no canteiro central da rodovia, não saberíamos se era para parar), onde informamos alguns dados do veículo, recebendo um pedaço de papel (praticamente sem importância) onde estava rascunhada a placa da moto. No entanto, esse papel foi útil na liberação da entrada no Complexo Fronteiriço Los Horcones (a 2.800 m de altitude, próximo à entrada do Parque Provincial Aconcágua, em Las Cuevas, formada por um enorme pavilhão coberto com muito boa infra-estrutura) e mais adiante, em outro posto de controle às margens da rodovia.











No retorno para a Argentina, não se pára na Aduana Paso Los Libertadores. O controle se dará mais adiante, na Aduana Integrada Chile-Argentina, em Las Cuevas, em território argentino. É preciso estar atento e parar nesses lugares para não ter de voltar (60 ou, 100km).
Também paramos para conhecer o Cemitério dos Andinistas e prestarmos nossa homenagem àqueles que motivados por um desafio e um sonho, sucumbiram na tentativa de vencerem as montanhas.





        


           




  Caravana de mulas em direção às montanhas.
  




Cavalgada, orientada por guias autorizados.



Não pretendíamos enfrentar o trânsito nas proximidades de Mendoza.
Já havíamos tido uma experiência cansativa quando, na ida, passamos por Córdoba, e optei por passar ao largo da Capital (Lujan de Cuyo, Pedriel, Rivadavia, San Martin) e seguir para La Paz.
Essa volta toda provou que o melhor teria sido seguir a rodovia principal, pois o que fizemos, resultou em perda de tempo precioso. Porém, nem tudo estava perdido. Ao menos, apreciamos a visão dos extensos vinhedos; alguns, com as vinhas apoiadas em pequenos pilares, contrastando com o layout das plantações que estamos acostumados a ver. Mas sem dúvida, foi perda de tempo.
Em La Paz, conseguimos uma pequena pousada e como não havia restaurante aberto, tivemos que nos contentar com um “X Qualquer Coisa” e um sorvete em uma lancheria no centro da vila.


Dia 19 de janeiro - quarta-feira – décimo primeiro dia

 Seguimos no clarear da oito em direção a San Luis, Vila Mercedes, Vicuña Mackena, Rufino, Junin, Chacabuco, Chivilcoy e finalmente, Lujan, ao escurecer. Outro trecho cansativo (por ser longo).



Em Lujan (a 80 km de Buenos Aires), cidade considerada “A Capital da Fé” argentina, nos hospedamos no Hotel Hoxon. Após a janta, no próprio hotel, saímos à pé para um passeio pela praça em frente à Catedral . Praça essa que lembra a Praça de São Pedro no Vaticano.




                     


  


     


  

Pensamos em passar por Buenos Aires (que não estava no nosso projeto para essa viagem, mas sim para outra oportunidade), atravessar o estuário do Rio da Prata de Buquebus. Mas não tínhamos certeza se lá aceitariam cartão de crédito ou se conseguiríamos fazer o câmbio com facilidade. Essa travessia também significaria mudar o trajeto dentro do Uruguai.
Resolvemos seguir o planejado.



Dia 20 de janeiro - quinta-feira – décimo segundo dia

Saímos no horário que programamos sair todos os dias (às oito da manhã), em direção a Campana, Zárate, passando pelas magníficas pontes sobre as várzeas do Rio Paraná até chegarmos em Gualeguaychú.
Estávamos na Ruta 14, lugar de tantas histórias de corrupção na estrada.
Nosso destino, sair da Argentina por Cóllon e entrar no Uruguai por Payssandú.
A Ruta 14 (pista dupla em cada sentido) estava em obras em quase todo o trecho entre Ceibas e proximidades de Concepción Del Uruguay, na Argentina; com apenas uma pista em cada lado liberada para o trânsito.
Em um trecho em que o trânsito estava liberado, conseguimos rodar mais rápido, uma vez que, a velocidade máxima era de 120 km/h. Como não queríamos contratempos com a polícia, que podia nos parar e com isso nos atrasar para chegarmos a Rivera naquele mesmo dia, procurei manter essa velocidade.
Essa Ruta é a mais policiada da Argentina. Parece que todos os policiais rodoviários estão aqui concentrados (e multando...).
Infelizmente, não conseguimos evitar sermos parados por uma blitz, próximo a Gualeguaychú. O policial alegou que eu havia ultrapassado a velocidade permitida. Estranhei, pois a velocidade permitida é 120! Mas eles argumentaram que onde eu passei em excesso de velocidade, o limite naquele local é de 80 km/h e avisou que teria que aplicar a multa.
Nesse momento tive a certeza do que eu havia visto a uns vinte quilômetros atrás.
Pouco antes do acesso a uma vila, havia uma van estacionada, do tipo DUCATO, branca, com as portas traseiras abertas. Antes da van, a cerca de quatro ou cinco metros, havia uma placa possivelmente, indicando a existência de radar. Eu havia recém passado (talvez uns cem metros) por uma placa que indicava a velocidade máxima permitida (80 km/h) e tirei a mão do acelerador, mas a van estava muito próxima dessa placa e mal pude perceber a indicação de radar e o próprio radar dentro da van. A armadilha estava montada!
Não havia como reduzir de 120 para 80 km/h em tão pouco espaço.
Tentei argumentar sobre a pesada multa ($ 800, cerca de 350 reais), apelando para o fato de que dispunha de apenas mil pesos até chegar à fronteira com o Uruguai. Mas o máximo que consegui foi uma redução para 560 pesos (aproximadamente, 240 reais - previsão legal para pagamento da multa no ato). Revoltado e cansado, paguei, deram-me recibo e fomos em frente. Daí em diante, as placas indicavam 60km/h, devido aos reparos nas pistas. E assim foi por mais de 80 km até a fronteira. Um sufoco.
Uma decisão foi tomada nesse momento: jamais passar novamente por esta Ruta 14!
Cruzada a Ponte Gal. José G. Artigas, sobre o Rio Uruguai, que une as cidades de Colón e Payssandú, entramos o Uruguai.






Os trâmites na entrada do Uruguai foram rápidos, apesar da enorme fila de automóveis. Aí mesmo, consegui trocar reais por pesos uruguaios e em seguida fomos em direção ao centro de Payssandú.


    

Na entrada de Payssandú há uma extensa área de descanso, com praças e vistas para o Rio Uruguai. Anda-se muito até encontrar alguma casa de moradia.
Queríamos seguir até Tacuarembó e sabíamos que a distância até lá era de cerca de 240 quilômetros. Tínhamos a informação de que nesse trajeto não havia postos de abastecimento. Nossa preocupação agora era encontrar um Posto de Serviço. Mas àquela hora, quase uma e meia da tarde não conseguíamos nenhuma informação.
 Estávamos parados em uma esquina quando avistamos um motociclista vindo em nossa direção. Fizemos sinal e ele prontamente parou, dispondo-se a nos acompanhar até um posto de abastecimento e nos mostrar a saída da cidade. Como demonstração de nossa gratidão, pagamos o abastecimento de sua moto.
Como já mencionei no início do relato, sempre que precisamos de informação encontramos gente disposta a nos atender com presteza e simpatia. A todos, nossos agradecimentos.
Abastecemos a moto e compramos um mapa do Uruguai. Seguimos a viagem sem lanchar.
Procurei não apertar o acelerador, o que mostrou ser prudente, pois foram 237 km sem nenhum posto de abastecimento entre Payssandú e Tacuarembó. Em Tacuarembó, novo abastecimento e o precioso lanche. Isso, quando já passava das três da tarde.
Ainda tínhamos 110 quilômetros até Rivera. Daí para frente a viagem foi mais tranqüila, mas a paisagem era outra. Das retas intermináveis, encontradas na Argentina, agora mudara para um relevo parecido com o do Rio Grande do Sul; curvas, vegetação mais intensa...
Chegamos a Rivera lá pelas cinco e meia da tarde.
Para registrarmos nossa saída do Uruguai, era preciso passar na Alfândega, carimbarmos os passaportes. O que não foi difícil, pois logo na entrada de Rivera, para quem vem de Tacuarembó, há sinalização.
Feitos os trâmites de entrada no Uruguai, fomos para o Julio Hotel em Livramento (com garagem e café da manhã) a R$ 100,00 a diária.
Acomodada a moto e as coisas no hotel, descemos a Rivera para jantar.


Dia 21 de janeiro - sexta-feira – décimo terceiro dia


O dia foi de passeios em Rivera, trocar o que ainda restava de pesos chilenos por pesos uruguaios e fazermos pequenas compras.


Dia 22 de janeiro - sábado – décimo quarto dia

Sábado pela manhã iniciávamos o último dia de retorno para casa.
Ainda restavam 605 quilômetros até Erechim(RS) e no início da viagem já começamos a enfrentar uma pequena precipitação de chuva (a única de todos os dias que estivemos viajando!) que nos obrigou a parar para fecharmos as roupas e colocarmos as luvas impermeáveis. Desistimos de colocar as luvas (que possuem dupla forração e mais, com a mão úmida se tornou um suplício tentar vesti-las) e seguimos, com a pouca chuva que caia. Mas logo parou de chover; o Céu abriu um pouco.
Nas proximidades de Santa Maria(RS), outra nuvem nos acertou com alguns pingos de chuva. Mas em seguida, o Sol voltou a nos acompanhar até o fim da viagem.
Uma viagem inesquecível, sob um Céu azul e um calor agradável.
Paisagens, sensações que a própria memória às vezes, falha em apontar, mas que estão registradas nas imagens produzidas pela lente da máquina fotográfica e em nossos corações.
Agradecemos a todos que, em pensamento, nos acompanharam nessa jornada e àqueles que rezaram para que tudo desse certo; a todos aqueles que deixaram seus relatos de viagem na Internet, os quais contribuíram para o planejamento dessa viagem; ao INEMA e, principalmente a Deus, que sempre esteve conosco.




Até a próxima aventura: Patagônia dos Lagos e Ushuaia



ALGUMAS DICAS:

1) A maioria dos hotéis possuem sistema Wi-Fi. Quando há computadores, esses sempre são de conexão lenta e obsoletos, muitas vezes, compartilhados com o sistema Wi-Fi disponibilizado. São Agustín De Valle Fértil, por exemplo, possui apenas uma Lan House, instalada em um pequeno mercadinho.
2) Sempre fazer o câmbio na entrada do país que se está visitando; preferencialmente em uma agência bancária ou, se isso não for possível, na própria Aduana.
3) Nunca esquecer da Carta Verde e, evidentemente, da Carteira de Identidade e da Carteira de Habilitação. A nossa CNH não é aceita em outros países apenas como documento de identidade; deve estar acompanhada da carteira de identidade!
Embora não seja exigido o passaporte e a carteira internacional de habilitação, ter o primeiro, evita o preenchimento de formulários extensos. A Carteira Internacional de Habilitação (repito: não obrigatória nos países que visitamos), pode ser obtida em qualquer CRVA ou Centro de Condutores aqui no Brasil, mediante o pagamento de uma Taxa de Expedição de aproximadamente R$ 35,00, sem necessidade de qualquer exame. Essa Carteira terá a mesma validade da CNH.
4) Quando ingressar em outro país, adquira um mapa atualizado. Geralmente são encontrados nas Aduanas ou em Postos de Abastecimento.
5) No Uruguai, entre Payssandu e Tacuarembó, são 237 quilômetros sem qualquer posto de abastecimento!


OUTRAS INFORMAÇÕES:

DISTÂNCIA PERCORRIDA: 5.830 KM
DIAS DE VIAGEM: 14 DIAS
GASTOS TOTAIS (hotel, combustível, alimentação, pedágio, ingresso aos parques: Ischigualasto, Aconcágua e ao Museu das Pedras do Mundo): R$ 3.860,00
MÉDIA DE GASTOS DIÁRIOS: R$ 275,00

SITES CONSULTADOS: 
                                                       

Um comentário:

Jailson Nespolo disse...

Belo relato!!! Nos motiva a viajar!! Abraços.